O primeiro do ano:
ou: a louça que me fez enxergar a vida como ela é
Veja, esse texto não é um guia para você. É um relato, tirado a partir de uma reflexão minha, sobre a minha própria vida e minhas circunstâncias. Cada um sabe aonde o calo aperta e o que lhe cabe.
Com esse pequeno lembrete, vamos ao acontecimento!
É de conhecimento geral (ou não) o fato de eu estar de licença do trabalho, por conta desse bebezinho fofo que tenho na maior parte do tempo nos braços. Isso significa que por 3 meses não participarei da rotina diária que me acompanhou no último ano: reuniões, emails, conversas, projetos, posts, textos, pesquisas e, é claro, a escrita.
Passada a turbulência inicial que vem junto com o nascimento de um bebê, eis que me pego pensando de forma recorrente no trabalho. Ele, que muitas vezes é motivo de cansaço, de apreensão, de incertezas. Ainda assim, diante da falta dessa parte da minha vida, estou com saudade.
Além da saudade saudável, essa semana me trouxe um pensamento que só apareceu lá no cantinho da alma, bem escondidinho. Um pensamento bem sutil, quase em forma de sussurro, com um toque de orgulho, veio enquanto eu lavava a louça: "Ninguém faz as coisas como eu faço, no meu trabalho"
Bom, isso não poderia estar mais longe da verdade.
Porém, antes de desenvolver o que aconteceu após esse belisco de soberba, preciso dar uns passos para trás:
Em uma conversa do ano passado, uma colega frisou a importância de não ser insubstituível no trabalho. Ela estava corretíssima, e a razão por trás desse pensamento é mais importante do que transparece em um primeiro momento.
Meu pensamento dessa semana foi completamente desordenado (portanto, mau). Minha sorte foi ter percebido esse erro alguns instantes depois, e não ter largado o assunto antes de minuciosamente investigar qual havia sido o motim.
Veja, eu sou insubstituível, mas não no trabalho. Sou uma pessoa única, com meu próprio valor e etc, mas o único lugar onde eu realmente farei falta (a ponto da minha ausência ter consequências intensas) é na minha família, mais precisamente: no meu núcleo familiar. Se for para tanto.
Um trabalho não passa de uma atividade externa que faremos para outrém, muitas vezes remunerado, mas é apenas isso. Quanto menos sentimentos de grandeza e de holofotes ele me despertar, melhor. Não sou "uma pedrinha preciosa" dentro de uma empresa, mas sim apenas mais uma cabeça, uma formiguinha dentro de um formigueiro. Fazer o que faço, com empenho e dedicação, deve ser apenas consequência do resto da minha vida.
"E por que resto?" você pode estar se perguntando.
Holly Pierlot*, essa autora mágica a quem eu sempre volto nas minhas indicações, traz uma hierarquia bem simples de se entender. Conhecidos como os "5 Ps" , são áreas importantes da vida que ela categorizou para conseguirmos ordenar e estabelecer uma rotina para as nossas vidas:
Prece
Pessoa
Parceiro
Pai
Provedor
Para deixar muito claro:
Prece: nossa relação com Deus
Pessoa: nossa relação conosco
Parceiro: nosso papel enquanto esposas (ou esposos)
Pai: nosso papel na criação dos nossos filhos
Provedor: nós e o trabalho
Como deu para perceber, o trabalho vem em último lugar, logo, ele não pode ser o centro de nossas vidas. Parece muito óbvio, imagino, mas o óbvio também precisa ser dito (e escrito).
Quando essa hierarquia é descumprida, tudo flui de maneira desordenada, como se as coisas só estivessem sendo feitas "para inglês ver". Você sente mais o cansaço, a irritação, a frustração… Parece que uma nuvem cinza te acompanha pelo caminho.
Então, voltando um pouco no texto, vejam como eu estava enganada: Insubstituível sou apenas para Deus e para mim mesma. Para as outras categorias (marido e filhos), talvez nem faça falta na rotina do dia a dia depois de uns bons anos. Para o trabalho, então? É orgulho querer me convencer de que sou tão boa a ponto de não conseguirem fazer o que já é feito sem mim.
Essa lição de humildade, aliás, aprendi com um chefe no trabalho. Ele, apesar de ter nos feito muita falta quando saiu, não é insubstituível - por mais talentoso que seja.
Para finalizar esse pequeno texto, quero dizer que usei esses 5 Ps para poder organizar a minha vida nesse ano. Realmente sentei, escrevi as 5 categorias e, a partir delas, fui destrinchando o que gostaria de fazer em cada parte. Se você puder (e quiser), recomendo que faça o mesmo. Ou não, é sua escolha.
Se as listas das categorias abaixo de "Prece" estiverem muito maiores do que a dessa primeira categoria, vem o alerta vermelho: será que não estamos confundindo a hierarquia das coisas?
Até o próximo email!
*Leiam o Regra de Vida Para Mães